sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Restaurantes a peso


TEMPERO DO MUNDO

valeria vieira

Não sei com certeza quando foi a primeira vez que comi em um restaurante a quilo, só sei que não faz muito tempo. A comida a quilo está tão presente no nosso cotidiano que não lembramos quando começou.


Muita gente torcia o nariz, dizia que era coisa de operário e ficava, às vezes, até envergonhado de dizer que comia em um desses restaurantes. Eram um pouco como as lojas de R$ 1,99: todo mundo ia, mas ninguém admitia. O mesmo acontece com as revistas de fofoca: todo mundo lê, mas ninguém assume que gosta.

No começo, os restaurantes a quilo tinham uma variedade pequena de pratos, como arroz, feijão, duas opções de carne e umas saladas bem básicas. Tínhamos um sentimento de justiça. A turma com estômago de avestruz pagava de acordo e os adeptos da salada se sentiam vingados: enfim estou pagando pelo que como. Era muito divertido ver o pessoal tentando equilibrar mais um pedacinho de bife sobre uma verdadeira montanha de arroz e feijão. E era batata caindo pela beirada do prato, e haja estômago para digerir tanta comida. A novidade fazia com que achássemos que era preciso comer de tudo, sem exceção. Os donos de restaurantes, sentindo o prejuízo, apareceram com pratos menores e encher o prato se tornou uma arte.

A ideia do bufê vingou. Os restaurantes à la carte começaram a perder clientela e foram aos poucos aderindo à mania, mas de uma forma requintada, com bufês de salada caprichados, várias opções de carnes e peixes e, em alguns, sobremesa incluída. A comida a quilo passou por uma mudança e ressurgiu nova e linda com o nome de self-service. A diferença é que, em muitos lugares, ficou para trás a balança e o preço se tornou fixo, mas com grandes vantagens. Pratos exóticos, carnes especiais, temperos da melhor qualidade e uma variedade realmente espetacular.

Admito que gosto de um self-service. Acabo comendo coisas diferentes, que normalmente não pediria se tivesse que escolher no cardápio. Os chefs se esforçam para criar algo todos os dias e, muitas vezes, o tempero é realmente o de uma boa comida caseira. O brasileiro inventou variações muito apetitosas para o conceito. Churrasco com self-service de saladas e sushi, de comida japonesa com arroz e feijão, sem falar nos de comida regional. Nos de comida mineira, comemos lombo, farofa, couve e mandioca até estufar e ainda não conseguimos resistir à mesa de doces. Nos de comida nordestina, comemos um pouco de tudo para conhecer, até darmos conta que mal conseguimos levantar da cadeira.

Acho que a única desvantagem de comer nesses restaurantes é a nossa gula. Já tentei ser comedida até nos de comida vegetariana, mas nem lá. Foram colheradas de arroz integral com gersal, tofu nas mais variadas formas e alfafa até quase desmaiar. Enfim, enquanto comer for um prazer, mesmo nos levando a pesar alguns quilinhos a mais, a vida vale a pena.

Os esnobes que me perdoem, mas nada como uma boa pratada quando a gente está com fome. A ideia de ver exatamente o que se vai comer, sem surpresas, é muito atraente. Sem falar na praticidade. Muita gente prefere comer num bom self-service do que cozinhar em casa, pois é mais nutritivo pela variedade de pratos e pelo frescor da comida. Nós brasileiros descobrimos uma maneira de comer bem e de forma saudável. Só não descobrimos como fazer para cortar o pecado da gula.


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